O Jota Quest chegou ao Palco Sunset do Rock in Rio em 6 de setembro com um repertório que foi além de uma participação especial. O show “Jota Quest Toca Tim Maia” levou ao palco as canções de “Dance Enquanto é Tempo”, álbum lançado no fim de agosto com 16 faixas.

O disco celebra os 30 anos do primeiro álbum do grupo mineiro sem tratar Tim Maia como peça de museu. A seleção percorre sucessos, lados menos óbvios e uma abertura construída com material de arquivo, procurando aproximar a linguagem pop da banda do balanço que moldou a obra de Tim.

De 1996 ao tributo de 2026

A ligação da banda com Tim remonta a 1996. Antes de lançar o primeiro álbum, o Jota Quest regravou “Dance Enquanto é Tempo” e precisou pedir a autorização do próprio autor. A conversa se tornou uma memória importante para músicos que ainda davam os primeiros passos fora do circuito de Belo Horizonte.

O encontro pessoal ocorreu depois, no Planeta Atlântida, e ficou como uma lembrança decisiva para a banda. A primeira regravação acabou dando nome ao álbum de 2026 e ajudou a transformar uma memória do início da carreira em ponto de partida para um projeto completo, pensado para disco, palco e formatos imersivos.

Rogério Flausino, Marco Túlio Lara, PJ, Paulinho Fonseca e Márcio Buzelin conduzem essa volta ao repertório de Tim como uma criação coletiva. Em vez de deslocar as canções para uma estética estranha a elas, o grupo trabalhou a partir dos grooves, das melodias e do peso dos metais.

Tim Maia em fotografia de 1970.
Tim Maia em foto de arquivo de 1970.
Foto: Luís Fernandes / Estadão / Wikimedia Commons · Foto de arquivo (1970)

Tim Maia em fotografia de 1970.

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16 faixas e convidados

O álbum reúne 15 releituras e “SEROMA”, abertura formada com trechos de voz de Tim Maia. Entram no percurso “Gostava Tanto de Você”, “Não Quero Dinheiro”, “Acenda o Farol”, “Primavera”, “Sossego”, “Azul da Cor do Mar” e “Racional Culture”, com espaço para canções muito conhecidas e faixas menos imediatas.

“Descobridor dos Sete Mares” entrou na seleção perto do fim e se tornou o single de trabalho. A banda buscava uma entrada de rap que tivesse função na canção; Negra Li chegou com um texto próprio dedicado a Tim Maia e ocupou esse espaço. O clipe foi dirigido por Batman Zavareze, que também assinou o conceito visual do projeto.

As participações acompanham caminhos diferentes da música brasileira. Thiaguinho aparece em “Réu Confesso”; Mãeana participa do encontro entre “Você” e uma composição de Burt Bacharach e Hal David; Os Garotin e Carlinhos Brown entram em “Imunização Racional (Que Beleza)”. Brown também toca percussão, ao lado de Mauro Refosco.

Há um elo de longa data em “Sossego”. Tony Tornado, que participou de “Há Quanto Tempo”, do primeiro álbum do Jota Quest, retorna três décadas depois acompanhado do filho, Lincoln Tornado. A presença dos dois leva o tributo para além das faixas de rádio e aproxima o grupo de uma linhagem direta da soul music brasileira.

Negra Li no lançamento da revista Luxe, em 2008.
Negra Li em foto de arquivo de 2008.
Foto: Altair Urbano / Wikimedia Commons · Foto de arquivo (2008)

Negra Li no lançamento da revista Luxe, em 2008.

CC BY-SA 2.0. Exibição com enquadramento e redimensionamento; imagem sob a mesma licença.

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Uma homenagem com aval do espólio

Carmelo Maia, filho de Tim e responsável pelo espólio artístico do cantor, acompanhou o trabalho, sugeriu ideias e autorizou o uso do repertório. Ele também cedeu vozes originais de Tim para algumas faixas. O material aparece nos arranjos como memória sonora, sem tentar fabricar duetos entre artistas de épocas diferentes.

PJ assina a produção musical. Rodrigo Aires ficou com a engenharia, João Miliet com a mixagem e Chris Gehringer com a masterização. A ficha reúne seção de metais, cordas, percussionistas e backing vocals, ampliando a massa sonora das canções sem encobrir a voz de Rogério Flausino.

As sessões foram feitas de forma analógica e depois preparadas também em Dolby Atmos. Os metais receberam atenção especial porque os riffs são parte estrutural da música de Tim Maia. Os vocais de apoio femininos também ganharam função de coro, reforçando as harmonias sem diluir as linhas principais de cada composição.

Tim Maia no centro do som

A escolha de não reinventar tudo de uma vez aparece em “Imunização Racional (Que Beleza)”, abertura de “Tim Maia Racional Vol. 1”, de 1975. A versão com Os Garotin e Carlinhos Brown preserva a energia de uma fase muito particular do cantor e coloca gerações distintas na mesma faixa.

O repertório alterna a pulsação de “Descobridor dos Sete Mares”, “Não Quero Dinheiro” e “Réu Confesso” com o alcance melódico de “Primavera” e “Azul da Cor do Mar”. Essa variedade explica por que Tim Maia cabe em um disco que também conversa com o percurso do Jota Quest entre pop, soul, funk e rock.

Do disco ao Sunset

A estreia ao vivo aconteceu no Palco Sunset, às 20h10, depois da chegada do álbum às plataformas. O festival apresentou o projeto a um público acostumado a ouvir Tim Maia por fases e canções diferentes. A transmissão do Globoplay registrou o momento em que as versões de estúdio ganharam escala de show.

A edição também sai em vinil duplo. Para uma banda que começou a relação com Tim Maia pedindo autorização para uma única faixa, o percurso ganha um desenho claro: a autorização de 1996, o encontro posterior, o repertório reunido em 2026 e um baile feito para deixar essas músicas circularem em outras vozes.

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